Hemisfério
Artista Curandeira: Andréia Guerra • Montagem: Hugo Bernabé
12 de setembro — 12 de outubro de 2026
Sobre a Exposição
Hemisfério nasce da convivência com o Paradoxo Casa Atelier. Antes de se tornar espaço de trabalho e criação, a casa era um lugar visitado em exposições, atravessado principalmente à noite. Com o tempo, a experiência de coabitar sua arquitetura e conhecer também outras luzes, horários e modos de chegar ao espaço passou a interferir diretamente na maneira de imaginar uma exposição.
É desse deslocamento que surge Hemisfério. Enquanto o sol nasce em um lugar, se põe em outro; enquanto a lua aparece de um lado, desaparece do outro. A palavra materializa essa coexistência de tempos, posições e perspectivas. Parte de uma imagem geográfica — hemisférios Norte e Sul, linha do Equador, meridiano de Greenwich —, mas se expande para além do mapa. O hemisfério é também uma maneira de pensar como habitamos o planeta, como nos relacionamos com o outro e como mudamos de posição ao longo da vida.
Trânsitos, Corpos e Linguagens
A exposição atravessa questões de migração, sociopolítica e território, mas também movimentos íntimos. Há momentos em que o mundo parece se inverter, em que aquilo que conhecíamos passa a ser visto por outro ângulo. Nesse sentido, cada pessoa também atravessa seus próprios hemisférios: afetivos, simbólicos, geográficos e até anatômicos, como os hemisférios do cérebro.
Fotografia e pintura foram escolhidas como as duas linguagens capazes de coabitar essa ideia no Paradoxo. Durante a mostra, tornam-se vizinhas e casa para trabalhos de artistas que também transitam: alguns não são do Rio de Janeiro; outros são, mas olham para a cidade de outra maneira. Cada trabalho parte de um hemisfério particular — interno, real, imaginado ou geográfico — e encontra os demais dentro do mesmo espaço.
A própria curadoria se constrói de forma orgânica, próxima do que já foi chamado de uma “curanderia”: uma relação de acompanhamento, convivência e escuta com artistas e processos. O convite feito a cada participante permaneceu deliberadamente aberto: trazer um hemisfério seu, seja ele interno, externo, físico ou simbólico.
Olhar o Outro Lado
Mais do que a metade de uma esfera, Hemisfério é trânsito. É a possibilidade de mudar de posição para conseguir olhar o outro e, nesse movimento, perceber também a si mesmo de outra forma. A exposição dialoga com uma imagem de José Saramago: para ver a ilha, é preciso sair dela. Aqui, artistas e visitantes são convidados a abandonar por instantes suas próprias ilhas, atravessar seus deslocamentos e descobrir o que aparece quando se olha a partir do outro lado.
Há também uma afinidade com o espírito de Just Kids, de Patti Smith, e com a experiência compartilhada por ela e Robert Mapplethorpe: a criação que ocupa a casa, transforma o cotidiano e faz da convivência um espaço possível para arte. É uma referência que encontra eco no próprio Paradoxo e em sua vocação para receber exposições fora da lógica rígida do cubo branco.
Coabitar Hemisfério é, portanto, aceitar a mudança de perspectiva. É olhar para esses trabalhos, para a casa e para os outros reconhecendo que nenhuma posição é definitiva. Sempre existe outro lado — e sempre existe a possibilidade de atravessá-lo.
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